9 de CopasNove de Copas
Palavras-chave · satisfação · prazer · conquista · gratidão
O desejo atendido: prazer real, barriga cheia, vontade de dizer que deu certo.
Ouvir a aulaEssência
O prazer chegou, e a carta trata dele sem complicar. Vontade atendida, descanso merecido, o contentamento simples de habitar bem o corpo e a rotina que você tem. Poucas cartas exigem tão pouca interpretação, e é justamente aí que mora o valor dela, porque nem tudo precisa de lição. Ela carrega o apelido antigo de carta do desejo e promete realização, com uma ressalva que vale ouro, a de que o pedido costuma se cumprir num formato diferente do imaginado. Julgar cedo demais o formato do que chega é o modo mais eficiente de perder o presente que veio. Também é bom lembrar que quase todas as taças ficam às costas da figura, longe do campo de visão dela, o que significa dizer que existem coisas boas na sua vida ainda não contadas e talvez nem percebidas. Ocupe o contentamento por completo, sem caçar defeito nele e sem antecipar a escassez seguinte. Aproveitar é habilidade, e ela se treina como qualquer outra.
A imagem
Um homem satisfeito está sentado num banco baixo, de braços cruzados e sorriso largo, com um chapéu vermelho na cabeça. Atrás dele, um pano azul cobre uma bancada curva e sobre ela se alinham nove taças douradas, dispostas em arco, todas na mesma altura. O que sustenta a mesa não aparece. A cena é frontal e sem paisagem, quase um retrato de anfitrião. A postura de braços cruzados mistura orgulho e prontidão, e é ambígua de propósito, porque tanto pode ser contentamento tranquilo quanto vaidade de quem exibe. Repare que ele senta diante do que possui, não dentro. E repare que as taças ficam às costas dele, fora do próprio campo de visão, o que dá à cena um comentário silencioso sobre quanto da nossa fartura escapa ao nosso olhar.
Luz
Gozar o que deu certo é a permissão que a carta traz. A viagem que enfim aconteceu, a casa que ficou do jeito certo, o crédito que chegou, o dia sem dor nenhuma. Também vale para prazer cotidiano e sem evento, com comida boa, corpo descansado, uma tarde livre. Marca um período de sorte e de bom humor, e a gratidão funciona aqui como aquilo que faz o contentamento durar, longe de qualquer obrigação moral. Dividir multiplica, seja contando a alguém, oferecendo a mesa, chamando gente para casa. Cabe ainda o exercício de olhar para as taças que estão atrás de você, isto é, nomear em voz alta uma coisa que já está boa e que você não vinha registrando. Confiança tranquila no próprio futuro é o tom da carta, e ela aparece quando essa confiança tem base real. Um conselho antigo completa bem, o de não julgar cedo demais a forma do que chegou, porque o desejo atendido raramente se parece com o pedido original.
Sombra
Alinhadas e bonitas, as nove taças passam a servir de vitrine em vez de circular. O contentamento só conta quando alguém assiste, e assim ele fica solitário. Chega junto o excesso que anestesia, com comida, compra, bebida e tela consumidas até o incômodo inicial sair de vista sem nenhuma solução. Há ainda a vontade atendida ao pé da letra que apresenta uma fatura imprevista, motivo para conferir se aquilo pedido há dois anos ainda interessa. Existe a autocomplacência que trava crescimento, quando o conforto atual passa a servir de argumento contra qualquer risco novo. E existe a dificuldade de receber, quando tudo dá certo e a corrida pelo alvo seguinte começa antes de qualquer comemoração. Nas duas pontas a correção é o mesmo gesto simples, o de parar cinco minutos e nomear em voz alta aquilo que está bom agora, sem acrescentar nenhuma ressalva na mesma frase e sem emendar logo em seguida o próximo objetivo.
Nas relações
Momento bom, e vale dizer isso em voz alta. Reciprocidade confortável, prazer físico, companhia que dá gosto, um pedido atendido dentro da relação. Para quem não está em relação, indica um período em que você está bem consigo e por isso mesmo atrai gente com facilidade. A ressalva é conhecida, porque satisfação exibida não é intimidade, e casal que só aparece bem nas fotos está evitando alguma conversa. Outro ponto delicado é o desejo antigo que se cumpre agora e já não corresponde a quem você virou. Pergunte se você ainda quer o que pediu, e depois aproveite sem procurar defeito no que está funcionando.
No trabalho
Reconhecimento, conquista, contrato fechado em bons termos, período de resultado. É bom momento para consolidar, comemorar com quem participou e cobrar o que é justo pelo próprio trabalho, sem constrangimento. Entra aqui também o prazer no ofício, aquela sensação de estar fazendo algo que você gosta e sabe fazer. Os cuidados são dois. O primeiro é a acomodação, quando o sucesso atual passa a servir de argumento contra aprender qualquer coisa nova. O segundo é o exagero na exibição, que cria ressentimento em volta e transforma colegas em plateia. Guarde parte do resultado, agradeça em público e mantenha uma frente de aprendizado aberta.
No corpo
Corpo bem, disposição boa, prazer sensorial disponível. A carta descreve períodos em que dormir, comer e se mover funcionam sem esforço, e é justo aproveitar isso conscientemente em vez de descobrir depois que foi uma boa fase. O avesso é conhecido e vem devagar, com conforto que escorrega para o excesso, bebida frequente, açúcar como recompensa automática, noites longas repetidas. Nada disso é catástrofe, e tudo isso se instala por acúmulo, sem decisão consciente. A indulgência prolongada é o risco descrito nesta carta desde sempre. Aproveitar o bem-estar e manter alguma regularidade não são opostos, são o mesmo cuidado em duas velocidades.
No caminho
O Nove pede que você aprenda a receber sem correr. Muita gente sabe lutar e não sabe desfrutar, e chega ao fim de cada conquista já ansiosa pela próxima. A carta propõe o contrário, que é ficar. Nomeie o que está bom, agradeça de forma concreta, conte para alguém. Também vale a pergunta mais séria, a de saber o que você realmente quer, porque desejo realizado sem exame revela que o pedido era de outra época. Existe uma distinção útil aqui entre satisfação que preenche e satisfação que apenas distrai. A primeira deixa você mais presente. A segunda deixa você adiando o mesmo assunto.
Correspondências
Número nove, culminação, realização, o pleno antes do encerramento do ciclo. Elemento água, com atribuição astrológica clássica de Júpiter em Peixes, expansão generosa no terreno do sentimento. Na Árvore da Vida corresponde ao Fundamento (Yesod), no mundo da criação, esfera lunar da imaginação, e o título hermético do grau é Senhor da Felicidade Material. As taças em arco, todas idênticas e alinhadas, formam a imagem de um inventário completo. O pano azul que esconde a base da mesa aponta para o que sustenta a fartura e não aparece. Este número é o ápice benfazejo do naipe.
Em outros baralhos
Desejo realizado é a leitura do Rider-Waite, com o anfitrião satisfeito diante das taças em arco, e várias tradições descrevem esta como a mais francamente favorável de todas as cartas numeradas. No Marselha o mesmo número trata de harmonia coletiva complexa, felicidade cotidiana dentro de um grupo, e a inversão traz dificuldade de encontrar o próprio lugar. No Thoth a carta se chama Felicidade, com nove taças perfeitamente dispostas e transbordantes, e é uma das poucas descritas quase sem ressalvas. Convém registrar uma divergência menor e útil, porque algumas leituras associam a cena a indulgência excessiva, o que depende inteiramente das cartas ao redor.
Para refletir
- O que está bom na sua vida agora e você ainda não nomeou em voz alta?
- Você ainda quer aquilo que pediu há dois anos?
- Qual prazer você tem exibido em vez de dividir?
- Onde o conforto atual está servindo de argumento para você não arriscar nada?
Afirmação
Fico no que está bom tempo suficiente para senti-lo por inteiro.